A prisão do homem que diz ter assassinado 80 pessoas na Paraíba exibe duas faces antagônicas: um marketing passageiro e uma constatação muito preocupante. Calma, que eu explico. E sugiro atenção principalmente por parte de quem deseja investigar crimes.
Jorlan Lopes da Silva, 33 anos, foi preso no dia 13 de setembro/2026, no município de Mulungo (PB), localizado a cerca de 85 quilômetros de João Pessoa. Ele estava vestido com roupas femininas, usava uma peruca e carregava uma criança de colo. O intuito, claro, era tentar enganar os policiais. Soou patético.
Após a captura, Jorlan disse em depoimento que já matou 80 pessoas ao longo de sua vida e que seu primeiro assassinato teria sido consumado aos seus 13 anos de idade. Matematicamente, portanto, esse rapaz – caso esteja falando a verdade – assassinou quatro pessoas por ano, a contar da primeira morte.
As duas faces do ‘marketing’
Apesar de Jorlan não ser nenhum nome/marca de peso no mundo do crime, é natural que sua prisão tenha ocupado espaços razoáveis de mídia. Afinal, não é todo dia que se prende alguém confessando 80 homicídios.
Mas é aí onde reside o lado sombrio da face. Se este homem conseguiu matar 80 pessoas no decorrer de 20 anos, é porque o Estado foi incapaz de frear um assassino contumaz. É muito crime para um sujeito escapar ileso por tanto tempo.
Sim, eu também não acredito na versão das 80 mortes. Isso tá mais com cara de ‘autopromoção’. No entanto, a própria polícia vem falando em “16 assassinatos nos últimos três meses” – mais de cinco mortes por mês –, o que também é um número muito alto.
Do Cinema à vida real
Matar muitas pessoas em espaços de tempo prolongados é cenário para décadas atrás. Os assassinos em série, por exemplo – que não me parece ser, exatamente, o caso de Jorlan – ainda inspiram livros e filmes pela forma como eles agiam sem ser pegos já no primeiro ou segundo crime. Antigamente, essa façanha era “compreensível”.
Mas nos tempos de hoje, até mesmo tecnologias medianas ajudam a identificar e localizar com mais facilidade criminosos desse perfil, antes que o número de ‘mortes nas costas’ passe de dois dígitos. A não ser que o assassino seja dono de um cérebro muito produtivo, o que não condiz com o ‘espantalho’ apresentado pelas polícias, quando de sua prisão.
Antes que alguém franze a testa, o texto não se trata de uma ‘crítica’ aos policiais. Tenho vivência o suficiente para entender que a profundeza do buraco [segurança pública] vai além da nossa capacidade de visualização.
Mas das duas, uma: no caso específico das supostas 80 mortes, ou ninguém deu trela para o assassino, ou, se deu, o fez de forma muito rudimentar.
Torçamos para que sejam, no máximo, as 16 mortes mesmo. Senão a propaganda pós-prisão será mais de Jorlan do que das polícias.