“No Brasil, as pessoas pensam que ser policial é subir favela e trocar tiro com traficante. Isso não é ser policial. Isso é ser policial burro”.
A frase entre aspas acima não é minha. Ela está nos primeiros 25 segundos que abrem a série O Mecanismo, dirigida pelo cineasta José Padilha (o mesmo de Tropa de Elite) e lançada pela Netflix em março de 2018. A série foi inspirada na Operação Lava Jato, um dos maiores escândalos de corrupção do país.
Sim, a frase impacta. Chamar os policiais que estão na ponta da lança de ‘burros’, realmente, gera cara feia e narizes contorcidos. Afinal de contas, na hora do caos são esses caras que vão bater de frente com o perigo e retomar – ainda que momentaneamente – a ordem social.
Mas para além da chamada “licença poética” presente no cinema, olhando por determinados pontos de vista, o autor da frase também tem suas razões. Somente um policial novato, comumente chamado de ‘recruta’, não vai sacar que a corrupção está por trás de 90% dos tiros que saem da favela em direção a um agente de segurança. E um policial mais antigo que ainda não percebeu isso deve andar no mundo da lua.
É preciso muita inocência – ou cumplicidade, o que é pior – para não entender que essa brincadeirinha de “polícia x ladrão”, em que ambos os lados portam fuzis, só existe por causa, principalmente, da corrupção; das manobras entre poderes/instituições; de um submundo lamacento a um palmo da nossa retina.
A corrupção se infiltra nas instituições; atende a pedidos escusos; agrada a uma minoria; domina postos de comando; e bota a máquina para funcionar apenas quando convém ao grupo. E quando esse esquema acontece na segurança pública, o resultado é o fortalecimento do crime organizado dentro e fora das favelas.
As cartas são dadas no ar refrigerado de prédios reluzentes. Mas o gatilho é acionado nas vielas do subúrbio, onde policiais entram para matar e morrer.
Deve ser esse o contexto que aqueles 25 segundos iniciais de O Mecanismo tenta desenhar.